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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

roda-viva

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá

A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá
 

CHICO BUARQUE
 

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

eu te amo


                  Ah, se já perdemos a noção da hora
                  Se juntos já jogamos tudo fora
                  Me conta agora como hei de partir

    
                  Ah, se ao te conhecer
                  Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
                  Rompi com o mundo, queimei meus navios
                  Me diz pra onde é que inda posso ir

    
                  Se nós nas travessuras das noites eternas
                  Já confundimos tanto as nossas pernas
                  Diz com que pernas eu devo seguir

     
                  Se entornaste a nossa sorte pelo chão
                  Se na bagunça do teu coração
                  Meu sangue errou de veia e se perdeu

      
                  Como, se na desordem do armário embutido
                  Meu paletó enlaça o teu vestido
                  E o meu sapato inda pisa no teu

     
                  Como, se nos amamos feito dois pagãos
                  Teus seios ainda estão nas minhas mãos
                  Me explica com que cara eu vou sair

     
                  Não, acho que estás te fazendo de tonta
                  Te dei meus olhos pra tomares conta

                  Agora conta como hei de partir.
 
 
                  CHICO BUARQUE

sábado, 23 de julho de 2011

tatuagem


  
                       Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
                       Que é pra te dar coragem
                       Pra seguir viagem
                       Quando a noite vem
                       E também pra me perpetuar em tua escrava
                       Que você pega, esfrega, nega
                       Mas não lava
   
                       Quero brincar no teu corpo feito bailarina
                       Que logo se alucina
                       Salta e te ilumina
                       Quando a noite vem
                       E nos músculos exaustos do teu braço
                       Repousar frouxa, murcha, farta
                       Morta de cansaço
   
                       Quero pesar feito cruz nas tuas costas
                       Que te retalha em postas
                       Mas no fundo gostas
                       Quando a noite vem
                       Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
                       Marcada a frio, a ferro e fogo
                       Em carne viva
    
                      Corações de mãe
                      Arpões, sereias e serpentes
                      Que te rabiscam o corpo todo
                      Mas não sentes
 
 
                      CHICO BUARQUE